HISTÓRIA DO BAIRRO
  O MANEQUINHO É NOSSO « voltar
Regina Chiaradia
 

      Ao fazer um levantamento sobre a estatueta mais popular da Zona Sul da cidade, nunca poderia imaginar que iria encontrar pela frente uma história tão confusa e cheia de inverdades, mas, contudo, fascinante.

      O MANNEKEN-PIS, estatueta que se encontra no coração da Grand’Place, em Bruxelas, capital da Bélgica é certamente a imagem mais conhecida da capital no mundo inteiro. Representa para a população belga, o espírito crítico e o humor do homem livre, mas acima de tudo, para um país que foi ocupado várias vezes por diversos povos durante vários séculos, é o símbolo do “homem livre numa cidade livre”.

      A história do MANNEKEN-PIS ninguém conhece exatamente sua origem e autoria. É muito obscura e um problema para todos os que tentaram escrevê-la. Existem muito poucos arquivos sobre o MANNEKEN-PIS, que, com certeza, é muito antigo. Até o século XVII, não há praticamente nada, exceto alguns documentos isolados, sendo que o mais antigo data de 1377.

      Apesar de existirem textos do mesmo ano, que atribuem a sua criação a outro escultor, a versão oficial de sua história, remonta aos 1619 anos, quando a Prefeitura de Bruxelas encomendou ao escultor Jérôme Duquesnoy père, uma nova obra em bronze, para substituir a antiga estatueta de pedra.
Contudo, o que torna esse levantamento apaixonante, são as coincidências entre o MANNEKEN-PIS belga, e o nosso MANEQUINHO brasileiro.

      Se isso nos trouxer algum consolo, O MANNEKEN-PIS belga, também foi roubado diversas vezes, entretanto, após cada roubo, ele foi encontrado e reconduzido ao seu pedestal.

      O primeiro roubo, aconteceu em 1745 por soldados ingleses, outro, em 1747 por soldados franceses, ainda um outro, em 1817 por um ex-prisioneiro, e, por último, em 1963 por um pretenso intelectual. Já em 1965, a estatueta foi destruída por um fanático e uma réplica teve que ser fundida. A partir de 1965, não existem mais registros de roubos ou ataques ao mais honrado e antigo habitante da capital belga, denominado pela população como “plus vieux bourgeois”.

      Outra coincidência, entre as duas estatuetas é o fato do MANNEKEN-PIS belga, também despertar nas pessoas vontade de vestí-lo. Hoje, o Museu Municipal de Bruxelas instalado na “Maison du Roi”, na Grand’Place, expõe um estupendo guarda-roupas do MANNEKEN-PIS, com mais de 250 trajes. Presentes que vão desde a veste de “Electeur de Bavière” dada por Maximilien-Emmanuel, Governador Geral dos Países Baixos, até o traje da corte, bordado em ouro, que lhe ofereceu o rei Luís XV. Incluindo-se aí, também muitos trajes folclóricos.

Tudo que as unem e tudo que as separam

      Após os levantamentos feitos, o primeiro fato que para nós ficou claro, é que, involuntariamente, cometemos uma injustiça com o nosso artista que esculpiu o MANEQUINHO.

      O artista autor do nosso MANEQUINHO é Belmiro Barbosa de Almeida, brasileiro de Minas Gerais, que nasceu em 1858 e alternou residência entre o Rio de Janeiro e Paris, onde radicou-se e faleceu em 1935, em plena atividade.
Belmiro de Almeida estudou na Europa, foi um excepcional desenhista e colorista que superou os ensinamentos acadêmicos usando os recursos da arte moderna como o Impressionismo, o Pontilhismo e o Futurismo. Aluno de Jules Lefebvre em Paris, em suas pinturas de corpos de adolescentes, há algo na linha sensual e elegante do mestre. Foi professor de desenho da Escola Nacional de Belas Artes e junto com Visconti é considerado o iniciador do Modernismo Brasileiro.

      Por que achamos que mesmo, involuntariamente, cometemos uma injustiça com o artista Belmiro de Almeida? Porque se tornou pública a informação equivocada de que o MANEQUINHO brasileiro era apenas uma réplica do MANNEKEN-PIS belga e, ao considerá-lo apenas uma réplica, deixou-se de dar a real importância a excepcional escultura de criança concebida pelo artista Belmiro. Na verdade, o nosso MANEQUINHO, jamais foi uma réplica do homenzinho belga. O autor brasileiro pensou nele apenas como uma inspiração para fazer uma bela estátua de uma criança. O modelo para a estatueta, que hoje se encontra instalada numa pequena praça em frente ao Botafogo Futebol e Regatas, veio de uma menininha, filha de um amigo do autor. Também não partiu dele o nome escolhido para a peça esculpida. Mas, em sua grandeza, Belmiro de Almeida aceitou como uma gentileza o apelido com o qual o povo carioca “batizou” sua criação.

      Esta história é contada pelo próprio Belmiro de Almeida ao seu amigo e professor Armando de Magalhães Corrêa, em um encontro casual, na porta da Tabacaria Londres, cujo texto se encontra registrado no livro Terra Carioca – Fontes e Chafarizes, de 1939, do próprio Magalhães Corrêa.

“ _ Queres que te fale do meu boneco, que o povo carioca batizou de “Manequinho”? Pois então escuta: Foi em casa de um amigo que observei a sua filhinha ensaiando os primeiros passos na alameda do jardim e notei uma coisa curiosa na proporção _ as crianças, nessa idade, têm o tronco muito maior que as pernas, o que não se verificava na formosa menina. Assim, pensei no “Manneken-Pis” de Bruxelas e comecei a modelar o meu Manequinho, servindo-me do modelo da menina.”

      Até mesmo a dedicatória gravada na base da estátua, onde se lê: “Homenagem ao caracter reto e independente do Dr. Rivadavia Corrêa” é explicada neste livro, onde Belmiro de Almeida conta toda uma “confusa” transação entre ele e a Prefeitura na compra da estátua pelo Poder Municipal, que envolveu alguns “acertos” e alguns contos de réis; “acertos” esses que só foram resolvidos quando Rivadavia Corrêa, amigo do artista, assumiu a Prefeitura e regularizou a compra: “ _ Para que se não diga que protejo amigos, diminua dez contos.”

      Existiam, na realidade, três peças do trabalho moldado em gesso por Belmiro de Almeida e confeccionado em Paris em 1911. A primeira fundição perdeu-se no momento de ser vazada em bronze por não ter sido o molde amarrado, dessa fundição salvou-se a cabeça, que foi dada pelo escultor, a Sra. Abigail de Paula Buarque e hoje pertence ao seu filho, Sr. Sylvio Brandon Schiller. A segunda fundição em bronze, era a peça que se encontrava na Enseada de Botafogo e foi furtada. A terceira e última fundição, que teve a expressão do rosto modificada pelo autor, foi dada pelo próprio, ao seu amigo Sr. Antonio Ribeiro Seabra e hoje, pertence a sua bisneta, Sra. Mônica Buarque Benchimol Saad, encontrando-se exposta no corredor do 8º andar de um prédio da Rua Senador Dantas, sede da empresa de propriedade da família.

      Resta agora a pergunta, e a estatueta do MANEQUINHO em frente ao Botafogo, quem é o autor? Bem, para nossa sorte, desde meados dos anos 50, a Fundição Zani, no bairro do Santo Cristo, havia feito um molde da escultura de Belmiro de Almeida e por ocasião do desaparecimento do MANEQUINHO da Enseada de Botafogo, a direção da firma, ofereceu o molde à Fundação Parques e Jardins da Prefeitura, para que pudesse ser fundida uma nova estatueta, exatamente igual à original criada por Belmiro.

      A Fundação Parques e Jardins foi procurada por um torcedor do Botafogo Futebol e Regatas, que se prontificou em financiar a moldagem do novo MANEQUINHO, que hoje à frente da sede do clube, recepciona a todos os torcedores. No entanto, é importante ressaltar que o MANEQUINHO, pelo seu simbolismo, não é apenas o mascote do clube, “é na verdade o símbolo do bairro de Botafogo”.

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