HISTÓRIA DO BAIRRO
  OS DONOS DE BOTAFOGO « voltar
Prof. Milton Teixeira
 

      Quando, a dezesseis de julho de 1565, pouco mais de quatro meses após a fundação do Rio de Janeiro, Estácio de Sá finalmente definiu os limites da cidade, esta possuía seu centro no "Morro do Castelo", terminando pela zona sul pouco antes do "Morro da Viúva", na casa de pedra erguida em 1503 onde hoje é a rua Cruz Lima, no Flamengo, pois dali até o "Morro da Babilônia", e da enseada até a Lagoa, tudo pertencia a seu dileto amigo Antônio Francisco Velho, "Mordomo da Arquiconfraria de São Sebastião" e fundador do Rio de Janeiro.

     Pelo sistema colonial português, o governador podia conceder terras a seus amigos ao bel prazer, à revelia da "Câmara de Vereadores", isentas de impostos conquanto fossem as mesmas desenvolvidas e medidas. Eram as famosas "sesmarias", e Botafogo era um cobiçado presente de luxo aos apaniguados do poder. A "Câmara" sempre protestou contra esses protegidos, conseguindo até o retomo muitas áreas devolutas ao patrimônio público, mas ela mesma também fazia das suas e só no século XVIII tais concessões foram regularizadas e, finalmente, a vereança soube quais eram realmente as terras públicas.


Não por muito tempo

     Na madrugada de 20 de julho de 1790 lavrou furioso incêndio no prédio do "Senado da Câmara", que funcionava num casarão ao lado do "Arco do Telles", no "Largo do Paço", atual Praça XV. Esse incêndio, de efeito pirotécnico milagroso, atingiu apropriadamente os papéis referentes às propriedades territoriais públicas, escapando incólumes outros documentos.

      O vereador Haddock Lobo apurou que o sinistro foi criminoso. Fora obra de alguns foreiros, com intuito de destruírem títulos e outros documentos que provavam o senhorio direto da Câmara sobre as posses que tinham. Apesar de toda a maracutaia que correu, conseguiu-se recompor os livros e a "Câmara" obteve do rei a Ordem Régia de 8 de janeiro de 1794 que lhe confirmavam todas as suas sesmarias. Mas mesmo assim muita coisa se perdeu e inúmeras terras que eram públicas viraram particulares da noite para o dia.

      No caso de Botafogo, a "Câmara" possuía os documentos em dia e já em 1681 fora doado o Morro da Viúva e terras anexas ao Mosteiro de São Bento. A Fazenda São Clemente, que englobava o "miolo" do bairro, pagava 2$560 réis de foro ao poder legislativo e de tudo era feito recibo. Conseguiu-se até, em 1794, levar aos tribunais o espertalhão Manoel Francisco de Mendonça, que por meios pouco honestos falseara documentos foreiros e apoderara dos terrenos no "Caminho Velho de Botafogo"(atual rua Senador Vergueiro) e tentava cobrar foro dos moradores.

     Mas a euforia dos vereadores pouco durou e em 1808, com a chegada da Família Real, a roubalheira voltou.

     O bairro valorizou-se bastante, haja vista que muitos fidalgos ali passaram a residir, a começar pela própria Rainha Carlota Joaquina, que foi morar na praia, num casarão erguido na esquina do "Caminho Novo"(atual rua Marquês de Abrantes). O último Vice-Rei do Brasil, D. Marcos de Noronha e Brito, Conde dos Arcos, conseguiu legislar em causa própria e se auto concedeu a "Fazenda da Olaria", que englobava nada mais nada menos toda a rua São Clemente e alguns terrenos vizinhos. Terras que seus herdeiros venderam em 1823 a um amigo do Rei D. João VI, o Comendador Joaquim Marques Batista de Leão, que nelas abriu em 1826 as ruas Nova de São Joaquim(atual Voluntários da Pátria), Real Grandeza, Marques e Largo dos Leões. O Conselheiro José Bernardo de Figueiredo, morador da praia, conseguiu sabe-se lá como uma carta de doação e tornou-se dono de extensas terras na orla. Afinal, era parente de um poderoso Regente do Império... Outro "barnabé", José Guedes Pinto, conseguiu de D. João VI nada mais nada menos que o foral de quase todos os terrenos do "Caminho Novo"(atual rua Marquês de Abrantes), lotes que depois vendeu ao Marquês que batizaria a rua em definitivo. Um "sabido", o bacharel José Antônio de Oliveira e Silva, conseguiu levar boa parte das terras da Lagoa Rodrigo de Freitas, pois provara por "a" mais "b" que a água da Lagoa era doce(em verdade, é bem salobra), provando que tais propriedades não eram terrenos de marinha e nada devendo ao patrimônio municipal. Agindo assim, lesou a "Câmara", que perdeu a arrecadação tributária de toda a região.

     Em meados do século XIX, devido aos muitos "espertos", eram poucos os grandes proprietários botafoguenses que pagavam foro à "Câmara". Os processos contestatórios na justiça foram tantos que nunca chegou-se a uma solução de consenso.

     A propriedade territorial foreira de Botafogo até hoje é caótica e, pode-se dizer que a cada ano aparece um novo "dono do bairro" exigindo foros atrasados e apresentando cartas de doação sabe lá obtidas como. Se isso continuar, daqui a pouco serei eu a aparecer com mais uma. Afinal de contas, sou descendente direto do primeiro dono de tudo, o português Antônio Francisco Velho, que, no final das contas, imerecidamente, ficou sem nada, nem uma homenagem póstuma numa ruela do bairro.

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