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EXPANSÃO URBANA E
ESTRUTURAÇÃO DE BOTAFOGO
* Pesquisa baseada em artigo de Sergio Lordello
 

Fazendo parte da freguesia rural de São João Batista da Lagoa, que compreendia a maior parte dos atuais bairros da Zona Sul carioca, o arrabalde de Botafogo, ate o final do século XVIII, não tinha um papel muito expressivo na cidade do Rio de Janeiro. Suas terras compunham a Fazenda do Vigário Geral, de propriedade de Clemente Martins de Mattos. Com a morte deste, em 1702, elas sofrem seu primeiro processo de repartição, dando origem a três chácaras: a da Olaria, compreendendo a maior parte do atual bairro de Botafogo, a do Outeiro e a do Vigário Geral.



A instalação da Corte Portuguesa no Rio de Janeiro, em 1808, provoca a expansão das funções administrativas da capital da colônia, assim como a abertura dos portos e a conseqüente intensificação das atividades comerciais. Botafogo passa a abrigar as camadas abastadas da população que se deslocam das freguesias centrais em busca de seu clima agradável e do encanto de suas belezas naturais.

A Fazenda da Olaria foi adquirida inicialmente pelo Conde dos Arcos, último vice-rei do Brasil. Em 1825 ela é transferida para Joaquim Marques Batista de Leão, que é o primeiro dos moradores de Botafogo disposto a urbanizá-lo, dando-lhe a aparência de um bairro. Subdivide suas glebas para loteamento e abre nelas duas ruas por volta de 1826, a REAL GRANDEZA e a Nova de São Joaquim (Voluntários da Pátria). Seus herdeiros abriram, em 1853, a rua MARQUES e o LARGO DOS LEÕES, onde se situava a mansão da família. Para os proprietários de chácaras, a abertura de ruas em suas terras era interessante, pois valorizava-as na perspectiva de um parcelamento imediato ou futuro.

A intensificação da ocupação da área se fará sentir cada vez mais aceleradamente. Se até meados de 1850, a figura da transferência de propriedade na área é a chácara, a partir daí será o lote de padrões nitidamente urbanos, testada exígua e grande profundidade. Um agente acelerador desse processo foi, sem dúvida, a acessibilidade criada com a introdução de uma série de meios de transporte coletivo que passam a servir Botafogo a partir de 1840, ligando-o efetivamente ao Centro da cidade. A implantação desses meios de transporte, acessíveis às camadas médias e baixas, com maior capacidade de passageiros e cargas e maior número de viagens diárias, decreta o fim do isolamento de que se beneficiava a aristocracia residente e, portanto, da característica eminentemente elitista que marcou sua ocupação inicial.

A chegada do bonde em 1871, cruzando o bairro e indo até o Jardim Botânico, mudando radicalmente a trama intra-urbana da cidade em geral, atinge Botafogo em particular, promovendo uma maior diversificação funcional, propiciando a ampliação do número de estabelecimentos comerciais.

A expansão experimentada pela área de Botafogo no século XIX tem sua expressão física na grande quantidade de novas ruas abertas nesse período, permitindo acesso a outra grande quantidade de novos e sucessivos desmembramentos. Botafogo terá, ao fim do século XIX, lançada praticamente toda sua malha viária atual.

Na abertura de novas ruas, o Poder Público, quando muito, por solicitação do proprietário, fornece ajuda, mas nunca possui recursos suficientes para aterrá-las, calçá-las ou muní-las dos melhoramentos necessários. O ajardinamento do Largo dos Leões, empreendido por seu proprietário, foi um exemplo disso.

O traçado viário atual do bairro espelha esse desenho espontâneo, resultado da soma das iniciativas individuais dos donos das chácaras no período dos parcelamentos intensivos.

O final do século XIX introduz um novo agente neste desenho, antes espontâneo, que são as primeiras iniciativas organizadas por empreendimentos imobiliários. O Banco Mercantil promove a abertura e a venda de lotes concomitantes das ruas Assis Bueno, Álvaro Ramos, Arnaldo Quintela, Fernandes Guimarães, São Manuel, Rodrigo de Brito, Oliveira Fausto e Travessa Pepe. Os irmãos Farani fazem a mesma coisa com a Farani, Barão de Itambi, Jornalista Orlando Dantas, Clarisse Índio do Brasil, Visconde de Caravelas, Visconde Silva, Pinheiro Guimarães e Conde de Irajá. Em fins de 1890, seriam abertas as ruas: 19 de Fevereiro, Aníbal Reis, Paulino Fernandes, Vila Rica, Tereza Guimarães, Elvira Machado, Martins Ferreira, Capistrano de Abreu, Diniz Cordeiro e João Afonso. Estava assim lançada, até o fim desse século, a malha viária interna básica do bairro como a conhecemos hoje.

A ocupação propiciada por esse novo sistema viário que se expande no século XIX, retalhando o bairro em quadras extensas e profundas, liga-se ao processo de "transbordamento" populacional do Centro. Num quadro mais amplo, o Rio de Janeiro sofria os efeitos da crise da cafeicultura fluminense, da abolição da escravatura, da chegada de imigrantes e do início da industrialização. Tudo isso gera uma crise habitacional, que atinge, principalmente, os bairros centrais. No fim do século XIX, consoante com o quadro geral da cidade na época, Botafogo vai apresentar uma ocupação de caráter misto em termos de classes sociais.

O surgimento dos primeiros estabelecimentos de comércio, contudo, está intimamente ligado ao atendimento das necessidades da população residente e a expansão do comércio se dá na mesma medida da expansão do uso residencial. Dados de 1859, relativos a Botafogo, demonstram uma grande concentração de comércio de gêneros alimentícios na Rua São Clemente. Já em 1863, apesar de persistir a predominância do comércio de alimentos, surgem, contudo, oficinas, antes inexistentes. A Rua Voluntários da Pátria, que em 1871 não tinha nenhuma expressão em termos de localização de estabelecimentos comerciais, surge dez anos depois como a de maior número de estabelecimentos no bairro.

A crescente mudança funcional do bairro pode ser especialmente sentida pela transformação que sofre a enseada de Botafogo. Este segmento do bairro, de ocupação originalmente aristocrática, vai mudando sua função principal ainda no decorrer da segunda metade do século XIX, transformando-se na segunda via em importância comercial e de serviços do bairro. Nas primeiras décadas do século XX, já é nítida a concentração de colégios e hospitais no bairro.

Para compreensão do processo de expansão de Botafogo nos primeiros 30 anos do século XX é preciso introduzir uma variável nova que é a ação do Poder Público, que muda radicalmente o seu papel no movimento de expansão urbana. Se antes como vimos, o desenho urbano nas áreas periféricas era de início basicamente espontâneo, resultante de um somatório das iniciativas individuais dos proprietários, muda-se este aspecto com o surgimento da iniciativa privada organizada ao fim do século e o Poder Público passando, logo depois, a interferir diretamente; dando suporte técnico e financeiro à realização do lucro do capital privado através de empreendimentos imobiliários. É o período do redesenho do Centro da cidade, das primeiras iniciativas de "renovação urbana" com a expulsão das camadas pobres das áreas valorizáveis da região central. "O Rio civiliza-se": erradicam-se os cortiços, são feitos novos aterros, arrasam-se morros, expulsam-se as utilizações do solo não-rentáveis.

Neste sentido, Botafogo terá reforçado seu papel de frente pioneira de ocupação da orla atlântica, assumindo cada vez mais a função de passagem, ligação obrigatória do Centro com a orla sul. O bairro passa por um novo processo de ocupação e adensamento, agora acompanhado e avalizado pelo Poder Público através de Projetos de Alinhamento de abertura de novas ruas, concomitantemente a novos loteamentos, principalmente no período 1925-30. As ruas, David Campista, Miguel Pereira, Eduardo Guinle, Bartolomeu Portela, Cesário Alvim, Alfredo Chaves, Vitório da Costa, Embaixador Morgan, Álvares Borgeth, Miranda Valverde, Guilhermina Guinle, Henrique de Novais, Barão de Lucena e Ipu são abertas, nesse período, dentro deste novo espírito.

No bojo da ocupação do bairro, agora tutelada pelo Poder Público, surgem as vilas e habitações coletivas. Essas soluções para o adensamento horizontal do espaço ocupado, são largamente disseminadas nesse período. Servem de moradia para levas de operários, biscateiros, artesãos, funcionários públicos, militares, profissionais liberais, pequenos comerciantes e bancários. Os primeiros vão ocupar os cortiços que se espalham pelo bairro; os últimos irão habitar as centenas de casinhas de vila e avenidas que passam a ser produzidas em grande escala.

É digno de nota o surgimento, nos anos trinta, dos primeiros dados estatísticos indicativos da favelização nos morros do bairro, como Pasmado, Saudade e São João. Paralelamente, o processo de ocupação das encostas do Corcovado nesse período, demonstra o início da saturação da parte plana do bairro.

Em 1933, aproximadamente 30% do total de prédios existentes no bairro é constituído de casas em avenidas, concentradas principalmente na Rua São Clemente, no trecho que vai até a Rua Real Grandeza. Em 1937, estão definitivamente encerradas as construções de vilas em Botafogo, por impedimento da legislação municipal. Esta proibição, aliada à renovação das técnicas de construção, permitirão o processo de adensamento do bairro, através de novas formas construtivas, primeiro com pequenos prédios de três a quatro andares, mais tarde, com edifícios de maior altura.

O período compreendido entre 1940 e 1960, marcado por um "boom" imobiliário nos bairros da orla marítima, principalmente em Copacabana, é uma época de relativa estagnação para Botafogo. Afora o surgimento de novas atividades de serviço, a densificação da Praia de Botafogo e a proliferação de favelas, o bairro mantém-se com uma ocupação predominantemente horizontal, mantendo sua fisionomia típica, basicamente de prédios baixos. O papel de Botafogo como centro de serviços especializados para os demais bairros da Zona Sul já está em marcha nesse período. Reforça-se sua característica como área de ligação entre bairros.

À medida que se intensifica o movimento dos passageiros transportados vai se estabelecendo uma diferenciação crescente no interior do bairro, entre os eixos de passagem e as quadras internas. Ao lado das ruas de intenso movimento, onde se misturam prédios de diversas idades e alturas e diferentes atividades, permanece ainda a imagem - paisagem de um Botafogo residencial e horizontal, com sua arquitetura e suas ruas que nos são tão familiares e que lhe conferem um "rosto" tão singular.

Nos últimos anos, a cidade do Rio de Janeiro, espremida entre seus vales, vive um processo de adensamento cada vez mais intenso. A contínua e crescente utilização das ruas de Botafogo como eixos de passagem, numa resposta mecânica do Poder Público ao aumento progressivo do volume de tráfego gerado, e na busca de interligar, a qualquer custo, os diferentes pontos da cidade, acabam por inviabilizar tentativas eficazes de controle e aproveitamento mais racional do seu espaço. A valorização do solo ao longo desses eixos fomentou a competição pela sua utilização entre diversos setores da atividade social e econômica, estimulando a renovação da área, a sua diversificação funcional e verticalização, muitas vezes aleatória, provocando a expulsão de grande parte de seus antigos moradores e transformando sua paisagem. É um pouco desse Botafogo "remanescente" que consideramos fundamental preservar.

* Pesquisa baseada no artigo de Sergio Lordello, "Expansão urbana e estruturação de bairros do Rio de Janeiro: o caso de Botafogo",in Revista Rio de Janeiro, Dezembro 1986 e na publicação "Botafogo/ história dos bairros", de vários autores, João Fortes Engenharia, 1983.

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